A ciência como uma vela no escuro (Carl Sagan)

Nos séculos 18 e 19, as mentes de brilhantes pessoas transformaram o mundo que conhecemos. O mundo saia do antropocentrismo e misticismo para iniciar uma nova era baseada no método científico. O antropocentrismo recebeu três derradeiros golpes, o primeiro dado por Newton (que provou que não estamos no centro do universo), o segundo dado por Darwin (que provou que não somo criados por Deus e que somos como qualquer outro animal) e o último dado por Freud (que desmascarou nosso egocentrismo). Mesmo assim, muitos humanos preferem negar a ciência, os fatos e o método científico, para se agarrar ao misticismo, pseudociência e a fé religiosa. Este blog tem como objetivo, divulgar a ciência, falar sobre ateísmo e religião e instigar o senso crítico. Aqui a ciência será colocada como uma vela que foi acesa com o objetivo de afastar a escuridão.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Mais sobre a evolução dos cães

O José Antonio Dias da Silva, do blog Evolucionismo.org, escreveu um ótimo post que fala mais sobre cães e lobos, que você pode ler clicando aqui. Este é um ótimo texto para complementar meu post sobre a evolução dos cães. que você pode ler clicando aqui.

Copiando parte de texto do "Zé" (agora vou chamar assim).


"No mês passado publiquei no blog Biorritmo uma matéria que dei o mesmo título acima. Coincidentemente, na mesma semana saíram duas matérias sobre o mesmo assunto que eu acreditava já tão batido: ou seja, a origem das diferenças entre cães e lobos. No meu blog foquei o assunto a partir de uma palestra proferida pelo renomado primatólogo Aldemar Coimbra Filho na sede da Associação dos Amigos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro em 2008.
Na ocasião, Coimbra Filho expôs que as numerosas raças de cães existentes são resultado da domesticação de mais de 50 subespécies de Canis lupus, o lobo, que há alguns milhares de anos vem sendo realizada pelo homem."

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A memória da água - Parte 1


A alguns posts atrás eu falei um pouco sobre pseudociência e usei como exemplo a homeopatia. No entanto fui confrontado com afirmações do tipo “a memória da água pode existir sim, e existem experimentos que apontam essa possibilidade.” Bom, para responder a este tipo de argumento, vamos falar sobre a memória da água. A memória da água é a hipótese de que a água possui a habilidade de reter a memória funcional de substâncias previamente dissolvidas a uma diluição arbitrária. Não existe evidência científica para tal hipótese, além do fato de que, se a água tiver a habilidade de memória, isso violaria todas as leis da física, química e biologia. Mas vamos lá.


Sempre, quando lidamos com qualquer tipo de informação, é preciso contextualiza-la, pois isso pode nos dar uma boa pista sobre as intensões dos autores de tais informações (e isso já nos dá uma dica da plausibilidade das mesas). A sugestão de que a água possui a habilidade de memória foi feita pelo pesquisador francês Jacques Benveniste, em 1988, durante um período que a indústria da homeopatia sofria forte pressão para explicar como que água pura poderia atuar como um medicamento específico. Apesar de Benveniste declarar que seu estudo não possuía interesse homeopático, dois de seus principais pesquisadores eram pagos pela Boiron, uma das maiores companhias de remédios homeopáticos do mundo.
 
Mas como funcionaria a memória da água. O que Benveniste fez para provar que a memória da água existe foi diluir anticorpos humanos em água, até o ponto em que não haveria mais anticorpos na solução (apenas água). Depois, ele usou esta água para ativar células do sistema imune humano (estas células só são ativadas na presença de anticorpos). Ele observou que as células foram ativadas pela água, o que indicaria que a água possuía uma “memória” adquirindo a mesma função dos anticorpos. Mais tarde, foi dada a explicação que a memória seria transmitida pela vibração destas moléculas e que esta vibração poderia ser gravada e passada por telefone para “memorizar” água um local remoto.

Os experimentos de Benveniste foram repetidos no mundo inteiro, afinal, tal resultado era digno de um prêmio Nobel. No entanto, os mesmo resultados só eram obtidos quando algum membro do laboratório de Benveniste estava presente e quando os pesquisadores sabiam quais tubos eram os experimentais (ou seja, em que se testava se a água “memorizada” ativaria as células). Sempre que não haviam membros do grupo de Benveniste ou quando os testes realizados eram duplo-cegos (ou seja, quem verifica os resultados do experimento não sabe qual tubo recebeu água “memorizada” e qual tubo recebeu água comum) os resultados mostravam que não havia o efeito de memória da água.

Assim, o trabalho de Benveniste foi considerado uma fraude (ou ingenuidade do autor) e Benveniste caiu em descrédito, recebendo dois prêmios Ignobel (o prêmio para a pior pesquisa científica feita). Mas o fato é que todos os homeopatas passaram a usar a memória da água como fato que explica os efeitos de medicamentos homeopáticos. E sempre que confrontados com os estudos criteriosos que mostram que tal efeito não existe, os mesmos homeopatas (e seus defensores) usam a desculpa de que a ciência atual não pode verificar o fenômeno e isso não quer dizer que ele não existe.

O que as pessoas ignoram é que: 1) não é a ciência que desqualifica a hipótese de memória da água, mas sim a observação crítica e o rigor metodológico que o fazem. 2) o contexto no qual a hipótese da memória da água foi criada; 3) o fato de que, se fosse verdade, tudo o que conhecemos de física, química e biologia seriam derrubados. Em especial a biologia no qual a interação entre moléculas possui um papel muito bem descrito e resolvido. Não que isso seja ruim ou proibido, mas é muito pouco plausivel; e 4) a lógica simples com perguntas simples como: “porque só a água adquire a memória?” ou “como a água é desmemorizada e como ter certeza disso?”

No próximo post vou falar um pouco mais sobre as implicações desta hipótese. Vamos considerar a hipótese verdadeira, que a água pode adquirir memória, ver algumas implicações disso e porque tal hipótese é muito pouco plausível.

Video Aula: Introdução a Hereditariedade

Como as características são herdadas? Porque somos parecidos com nossos pais? Como as características genéticas são herdadas? Aí está mais um video-aula para os alunos de biologia e qualquer pessoa interessada em saber um pouquinho sobre as bases da Hereditariedade. 

É importante ressaltar que o vídeo se concentra nas chamadas heranças monogenéticas (quando uma característica é determinada por apenas um gene), mas a grande maioria de nossas características são determinadas por um conjunto de genes (e hoje sabemos que vai além dos genes). No entanto, como diz o título, é uma introdução e é a base para quem quiser se aprofundar mais.

Aproveitem!



Esta semana da ciência

No carnaval brasileiro, até Ciência das Banas para. Mas estamos de volta!


Links originais

Formação de buraco negro: http://cnet.co/15edIBZ
Cura da diabetes em cães: http://bit.ly/XetsOP
Pênis destacável: http://bit.ly/Y0sxD8
Asteroide: http://bit.ly/XHEmvY
Circuitos biológicos sintéticos: http://bit.ly/Yh0SLW
Morte dos recifes de coral: http://bit.ly/Yrh13o

Adaptado de: I Fucking Love Science

Adeus a Alexandre Peixoto

Nunca foi meu objetivo colocar aqui notas de falecimento de pesquisadores. No entanto, o Alexandre não era apenas um grande colega de trabalho, mas também uma pessoa pela qual eu tenho profunda admiração, sendo considerado por mim um dos melhores pesquisadores brasileiros da atualidade. A morte dele foi de uma grande tristeza para amigos e colegas de trabalho e reproduzo abaixo a nota de falecimento do site do Instituto Oswaldo Cruz.


Adeus a Alexandre Peixoto

A perda de um exemplo de dedicação à Pesquisa e ao Ensino, de um pesquisador jovem e brilhante: é assim que o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) vivencia a triste notícia do falecimento de Alexandre Afrânio Peixoto, ocorrida no dia 10 de fevereiro em um trágico acidente. A saudade prematura deixou absolutamente consternada a comunidade do Instituto. A missa de sétimo dia foi realizada na paróquia Nossa Senhora de Copacabana (Rua Hilário de Gouveia, 36 - Copacabana), no dia 16 de fevereiro, às 9h. 

Especialista em genética de insetos, Alexandre era chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Insetos e atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular do IOC. Na carreira abreviada de forma abrupta, Alexandre acumulava o reconhecimento como pesquisador Nível 1A e líder do grupo de pesquisa em Genética Molecular do Comportamento em Insetos junto ao Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), além de ter recebido reconhecimento internacional por meio das edições 2002 e 2007 do Programa Internacional de Pesquisa Acadêmica do Instituto Médico Howard Hughes.

Sob sua liderança, o Laboratório de Biologia Molecular de Insetos do IOC atuava em pesquisas sobre insetos vetores de doenças tropicais, com ênfase na genética molecular e evolutiva do comportamento de flebotomíneos (vetores das leishmanioses) e de mosquitos vetores da dengue, febre amarela, filariose e malária. Os pesquisadores investigam complexos de espécies crípticas de insetos vetores e o possível papel de genes que controlam o comportamento no processo de especiação, com ênfase nos mecanismos de isolamento reprodutivo. Também é realizada a análise de genes que controlam os ritmos circadianos, previamente caracterizados em Drosophila, e as funções desses genes no controle dos ritmos de atividade e alimentação em flebotomíneos e mosquitos.

Bacharel em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Alexandre formou-se mestre em Ciências Biológicas, concluiu o doutorado em Genética na University of Leicester, no Reino Unido, e o pós-doutorado na Brandeis University, nos Estados Unidos. Revisor de mais de uma dezena de periódicos científicos, incluindo Plos One e Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, era membro do Conselho Editorial da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Autor de mais de 70 artigos científicos, formou 18 mestres e 14 doutores. Em 2011, assumiu o desafio de coordenar o tradicional Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular do IOC.

O pesquisador deixa esposa e dois filhos.

(Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pseudociência: Um dragão em minha garagem.*




"Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem."

Suponhamos que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!? (Sagan, 2006).

Você pede para ver este incrível dragão e eu o levo, sem cerimônias, até minha garagem. Mas daí, para sua decepção, a garagem está assim:




"Onde está o dragão?", você pergunta. E eu respondo que ele é invisível. Você pede então para jogar farinha no chão, para que possamos ver suas pegadas, e eu concordo. Mas após o teste, nenhuma pegada surge e eu respondo: "É que ele voa...".

Mas você, se for crítico, cético, não desistirá de ver o dragão. A próxima ideia é borrifar tinta no ar. Eu acho ótima ideia e pegamos um galão de tinta e borrifamos em toda a garagem. Mas nada de dragão. Eu então explico: "É que o dragão é imaterial!".

As coisas começam a ficar difíceis. Você pensa então num último teste. Se o dragão solta fogo pelas ventas, ele poderia, com sua baforada, queimar alguma coisa? Eu concordo e selecionamos várias coisas para queimar ou esquentar: uma barra de metal, uns gravetos, uma lata com água... Eu peço para o dragão usar sua baforada e, muitos minutos depois, tudo continua como antes. Agora eu respondo: "É que ele é tímido e só solta fogo quando as pessoas não estão vendo."

Se é este o problema, você propõe que todos saiam de perto. Mas eu falo que eu preciso estar perto. Então você pensa "e como garantir que foi o dragão que esquentou algo?" então você concorda, mas quer o uso de uma filmadora. Relutantemente eu aceito e, depois de tudo pronto, os testes são feitos. Mas tudo continua igual e eu dou uma nova desculpa como "O fogo mágico não é quente".

Acho que vocês entenderam onde quero chegar, não? Este texto é baseado, quase que copiado, do capítulo "O dragão em minha garagem" do livro "O mundo assombrado pelos demônios", de Carl Sagan (que eu falei ontem neste post aqui). O texto mostra muito bem como funciona o pensamento crítico e como, diante de argumentos experimentais, desculpas são criadas para manter a fé, o credo e até mesmo para invalidar o método científico.

A pseudociência funciona de forma parecida também. Parecida no sentido de querer usar métodos científicos para explicar as coisas mas, quando o método científico mostra que não há nada, a pseudociência acaba usando desculpas ou até alterando dados para validar suas idéias. 

Exemplos de pseudociência são os estudos de Óvnis  de casos de paranormalidade (paranormal, como o nome deixa claro, é algo além da normalidade, além da natureza. Logo, a ciência não pode explicar pois a ciência explica a natureza), mediunidade, astrologia, entre outros. Um exemplo bem clássico de pseudociência é a homeopatia. Entrarei em mais detalhes sobre a homeopatia em outro texto, mas para demonstrar como as coisas acontecem, a homeopatia servirá bem. No início do século 20, com o desenvolvimento da medicina, foram criados testes para comprovar que medicamentos são eficazes. São os testes duplo-cego, no qual um grupo de pessoas recebe o medicamento e um grupo de pessoas recebe algo que não faz nada, o placebo (açúcar ou água, por exemplo). Nenhum dos pacientes sabe se está tomando o medicamento ou o placebo. Um medicamento é considerado eficaz, quando o número de pessoas que melhoram tomando o medicamento é bem maior que o número de pessoas que melhoraram tomando o placebo. Bem, a questão é que os medicamentos homeopáticos sempre falham no teste duplo cego (e são 100 anos de testes), ou seja, eles não são melhores que água ou açúcar se você acreditar que a água vai realmente curar alguma coisa.

Mas qual a resposta dos homeopatas? São muito parecidas com as desculpas que dou para defender meu dragão. Em geral, eles dizem que a eficácia dos remédios homeopáticos não pode ser verificada pelo teste duplo-cego. E se você propõe outros tipos de testes (que funcionam com medicamentos convencionais), os homeopatas aceitam fazer os testes, mas quando o teste mostra que a homeopatia é tão eficaz quanto água a resposta é sempre a mesma: "este teste funciona para tudo, menos para homeopatia". No fim, terminamos ouvindo coisas como: "A ciência atual não explica tudo e a homeopatia é uma destas coisas que a ciência não tem como explicar".

Pois bem. Garanto que se amanhã um teste comprovasse a eficacia da homeopatia, todos os homeopatas alardeariam o fato de como a ciência demonstra e prova que a homeopatia funciona. E assim é com todas as pseudociências, elas se parecem com ciência, usam testes, palavras e postura muito similares a ciência, mas no fim, são apenas fé (ou seja, você defende sua posição independentemente dos argumentos). O problema disso é que a pseudociência se parece tanto com ciência que até mesmo muitos cientistas não conseguem diferenciar as duas. E se cientistas tem dificuldade em dizer o que é pseudociência e o que não é, imagine todas as outras pessoas. No fim, a pseudociência causa desinformação e, mais grave, causa o descrédito científico. E isto é algo que precisa ser evitado, combatido, de todas as formas. Por isso, eu continuarei a abordar a pseudociência em muitos outros posts, falando de astrologia, Óvnis, milagres, fantasmas  e, claro, homeopatia.

*Sagan, C. O mundo assombrado pelos demônios. Ed. Companhia das Letras. 448pp. 2006.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Leitura Recomendada: O mundo assombrado pelos demônios

Foi em 1998 que minha professora de Biologia Celular (Margherita Anna Barracco) disse para nossa turma: "Vocês não podem se formar biólogos sem ler o livro O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan.". Como eu era obediente, comprei o livro e, para minha felicidade, o li.

Hoje eu digo para meus alunos a mesma coisa: "Não se formem sem ter lido O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan.". Mas porque este livro é tão importante, não só para a formação de biólogos, mas para a formação de cientistas e, na minha opinião, na formação de nossas crianças? Porque este livro não é apenas uma defesa apaixonada pelo método científico, mas também um livro que ensina com muita clareza a diferença entre ciência e pseudociência (algo que acho fundamental para todas as pessoas). Segue abaixo o prefácio para que vocês tenham uma ideia do conteúdo do livro:


"Este livro é uma defesa apaixonada e apaixonante da ciência e da racionalidade humana. Carl Sagan, que não tem poupado esforços para divulgar os conhecimentos científicos de forma correta e clara, ataca o vírus do analfabetismo científico que faz, por exemplo, com que a maioria dos americanos pense que os dinossauros conviveram com os seres humanos e que desapareceram no Dilúvio porque não cabiam na Arca de Noé. Ou que acredite em explicações pseudocientíficas e ficções, do monstro de Loch Ness às estátuas lacrimejantes da Virgem Maria, do Abominável Homem das Neves ao poder das pirâmides e dos cristais, do Santo Sudário a terapias de vidas passadas, de anjos e demônios a seres extraterrestres que seqüestram e estupram. Para o autor de Pálido Ponto Azul, longe de serem inócuas, essas crenças e modismos podem causar danos terríveis; nos Estados Unidos pais inocentes estão sendo condenados em decorrência de falsas lembranças de abuso sexual de seus filhos, induzidas por terapeutas incompetentes. Da mesma forma, ele mostra que a crença nos argumentos de autoridade e o declínio da compreensão dos métodos da ciência prejudicam a capacidade de escolha política e põem em risco os valores da democracia."

O mundo assombrado pelos demônios foi um paradigma em minha carreira como cientista. Foi com ele que eu aprendi o que é ciência e como a ciência funciona. Foi com ele que eu aprendi a ler com crítica, debater com argumentos e receber as idéias de outros com ceticismo. Foi com este livro que eu aprendi a ser cientista.